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Palavras feitas para durar

8 de outubro de 2015

Por: Evandro Affonso Ferreira

A única obrigação do escritor com a sociedade é escrever bem – disse o poeta Auden, plagiando-me quando eu ainda possivelmente usava calças curtas no interior mineiro. João Guilhoto navega no mesmo barco, faz coro comigo, se me permitem insistir na boutade e com o convincente bardo inglês. O personagem do livro de Guilhoto é a própria palavra. Sensação ad introitum: o autor vai clicando palavras para vivificar frases que fotografam o fazer-livro, o arquitetar-cidade, o elaborar-páginas, o tecer momento – a despeito de seu narrador, debater-se num oceano de dúvidas, por assim dizer, ao querer distinguir as coordenadas do tempo – as questões agostinianas.

Sei que Guilhoto costura palavra sob medida à semelhança dos sapateiros (de minha cidade gênese), aqueles que faziam sapatos à mão. Sim, as palavras dele são feitas para durar, não se deformam com as puerilidades do efêmero, não caminham subservientes pari passu com a própria época ou moda.

Vejam: quase toda a vida se poderia resumir a isso: pouco mais do que uma aproximação. Sim, o autor pertence à árvore genealógica de raízes sólidas, muito sólidas. João Guilhoto? Primum móbile deste denso conjunto de escritores que cobre a vasta extensão de terras-encantamento, cujo nome é Floresta Lusitana. Minha analogia arbórea não surgiu aqui por obra do acaso: e o líquido que vive entre o vidro vê-se como uma silhueta sobre a mesa de carvalho polido. Envernizam-se os objetos do mundo para que nos esqueçamos que eles vêm da natureza.

Costumo dividir escritores entre informativos e reflexivos – os primeiros são, se me permitem o neologismo, ajornalistizados; Guilhoto é contemplativo, dispensa considerações, recolhe-se ele mesmo ao lado das palavras para preocupar o pensamento – afaga considerações: Como já não há Deus, como a imaginação está presa entre as paredes do que vive e do que se percepciona, como não há esperança, nem futuro, como todo presente é uma sombra do passado, e as nossas ações uma consequência que tentamos justificar através de conceitos do que nos moldamos a ser, como nada parece ter importância, subo ao cume duma montanha, que vejo da minha janela, de onde proclamo aquilo que tem de ser justo. Eis Guilhoto dialogando sabiamente como nosso Nietzsche zaratrustriano – se assim se pode dizer.

Lendo O Livro das Aproximações, percebe-se ainda o nítido apuro linguístico do autor: não é difícil concluir que ele também sabe que escritor genuíno, alheio a qualquer mistura, diáfano, precisa lutar para se apropriar de sua ilha-palavra. Sim, Robson Crusoé dos vocábulos. Sabe igualmente que devemos escrever, se possível, pensando nele, Rousseau, aquele que cantava para as janelas que não se abriam – como observou poeticamente Starobinski. Sei que com ele, Guilhoto, tem-se a sensação de que os vocábulos não amanhecem acocorados, esquivos, cabisbaixos no canto da sala, querendo se expor – de jeito nenhum, muito pelo contrário: a palavra e a frase e o parágrafo resplandecem na página.