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Mas afinal, o que pode a literatura?, é o que este livro, que já nasce incontornável na crítica woolfiana, parece nos perguntar. E de imediato a pergunta se ramifica, formando linhas que, se por um lado escapam de significados fixos, também anseiam pelas conexões insuspeitas. Em um percurso que vai porificando os gêneros nos textos de Woolf – os genres enquanto categorias formais, de romances a contos, de ensaios a memórias, colados aos genders que preconizam molduras de feminino e masculino –, os ensaios de Davi Pinho sugerem abandonar qualquer leitura dogmática em favor das possibilidades de atravessar o pensamento. E é assim que ele nos traz Virginia Woolf, como pensadora, como artista, como nossa contemporânea. Woolf em toda a sua extraordinária capacidade de conversar com questões atuais, da guerra e da violência ao valor do riso em meio à tragédia, do luto ao autoritarismo, dos debates de gênero, classe e raça à ocupação poética e ficcional de reescrever o mundo. Mas Woolf é uma contemporânea inconforme, admitimos.
Ela nos chega não só como quem não coincide de todo com seu tempo, como se espera de qualquer contemporâneo, mas também como alguém que, mesmo envolvida profundamente na tradição, não quer “manipular um paralelo contínuo entre a contemporaneidade e a antiguidade”, e sim abrir janelas para visões do futuro que, diz Davi, “ela ficcionaliza como um convite”. Uma Woolf que se quer, de saída, instável. Modernista, mas nem tanto. De um vanguardismo genial, mas um pé bem calçado no vitoriano. Aderida de muitas maneiras ao colonial, e profundamente anti-Império. Alguém que, em suma, resiste à armadilha do pertencimento para fazer da experimentação seu método, da literatura uma forma de, também, se ocupar daquilo e daqueles que são enxotados para as margens. Traçando uma metodologia do fora, ou outsideness, no termo de Davi, Woolf queeriza, estranha, as categorias em que se inscreve, o estar dentro e fora, friccionando a ficção entre a norma e o novo. Insiste no convívio com a diferença, ainda que às vezes fracasse, criando uma verdadeira política de vulnerabilidade. Porque sua voz se alicerça em vozes outras, do passado e do futuro, Woolf fala com cada um de nós no presente, sem nunca deixar de ser uma mulher de seu tempo – e é desse paradoxo trabalhado por Davi, desse lugar que é ao mesmo tempo um não lugar, recusando cartografias (até mesmo as suas próprias), que ela insiste: transgridamos. Queerizemos. A literatura não é território de ninguém. Se os riscos são inevitáveis, que seja; é com eles que se marca qualquer página.
Ana Carolina Mesquita
Título: Virginia Woolf entre gêneros
Autor: Davi Pinho
Gênero: ensaio literário
Edição: 1ª
ISBN (livro físico): 978-65-5153-017-3
Formato: 14,7 x 23 cm
Páginas: 352
Preço (livro físico): R$ 99,00