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Seis breves notas sobre Mentiras

17 de maio de 2016

Por: João Guilhoto

1. Quase poderíamos dizer que a leitura é um acto de crença. Uma crença obstinada na verdade da mentira, como se o gesto de abrir um livro se equiparasse à colocação do elmo e ao alçar da espada para vencer gigantes que não existem, como fez Dom Quixote. Mas talvez a mentira do livro seja a realidade em si. Já o disse Felipe: “— Mentiras não é ficção, nunca foi. A ficção e o homem são uma coisa só! Você não entende? Chamá-lo de ficção é a maior ficção de todas.”

2. O romance Mentiras, de Felipe Franco Munhoz, todo escrito em diálogo, apresenta-se por ser a construção de uma ficção per se. Munhoz não procura caminhar no sentido de uma verdade através dos diálogos, como pretendia Platão, apresentando o diálogo antes como construção dessa suposta obra que nasce no momento da leitura. É um texto que se pensa a si próprio. Podemos até dizer que Mentiras, conscientemente ou não, abraça o denominado pós-moderno: “procura quebras, eventos, em vez de novos mundos”, utilizando uma definição do filósofo Frederic Jameson. Além disso, Felipe, ao limitar-se formalmente, atira-se para o meio de uma batalha pela legitimação da escrita que ele parece travar consigo próprio, sem descurar o talento em entreter o leitor, atribuindo novas definições a fenómenos como quando se referiu ao mar, talvez fruto de tanto tempo passado a contemplá-lo durante a infância, como aquilo que está “constantemente mudando sem jamais mudar”. O humor surge também como parte fraturante, e de uma grande fineza, como serve de exemplo a seguinte passagem a propósito do episódio bíblico entre Abraão e Isaac: “Zeus mandaria Abraão matar o filho? Zeus mataria o filho!”. Felipe está aqui tão inteiro, Felipe o homem e Felipe o personagem, ainda por cima rodeado de tantas referências: Melville, Faulkner, Joyce, Lobo Antunes, entre outros.

3. A personagem principal, Felipe (Franco Munhoz), — pois é a única que aparece nos dois principais planos, tanto em colóquio com Philip (Roth) como em colóquio com Thaís, sua amante —, parece colocar este problema em modo retórico: afinal porque escrevo? Munhoz chega mesmo a perguntar a Roth: “Philip, qual é a missão do escritor, do artista? Igualzinha há séculos. Continua sendo a de garantir a nuance, elucidar a complicação, sugerir a contradição.” No sentido de justificar a escrita em si, Felipe e Philip debatem velhas questões. Felipe chega a dizer que escrever é o travesseiro que se faz para nos deitarmos e morrer, referindo-se a uma metáfora utilizada por António Lobo Antunes. E os leitores mais atentos ao trabalho de Roth, segundo o próprio autor, vão encontrar inúmeras referências implícitas a algumas obras do escritor norte-americano, o que confere à leitura de Mentiras uma outra dimensão.

4. A grande batalha na senda para dar sentido à escrita, talvez a mesma para inventar um sentido para a própria vida, trava-se também no eterno dualismo entre o impossível e a realidade, no livro, entre Thaís e Marina. Thaís, que dialoga com Felipe, não é apenas um acontecimento verdadeiro em Mentiras, ela é aquilo no qual o protagonista pode tocar. A cada conversa entre Felipe e Thaís está implícito um momento sexual, que se repete sem precedentes até ao fim do livro. Essa repetição do acto sexual dá a Thaís essa condição de realidade, de palpável e, por isso, ao mesmo tempo de coisa. Thaís chega mesmo a parecer que nem é desejável. Ela está simplesmente aí. Por outro lado, Marina, que nunca aparece, provoca no protagonista uma transformação íntima, e fá-lo converter-se gradualmente em judeu. A propósito deste confilto entre as duas mulheres-tipo, não ficará redutor citar aqui um aforismo de Novalis: “Procuramos por todo o lado o Incondicionado e não encontramos senão coisas”.

5. Tudo é assumido neste livro: a sua ficcionalidade, ou seja, a própria mentira, o desdobramento do autor em várias vozes (“Primeiro, você deve ter em mente que somos apenas vozes.”), a homenagem a Roth, e o criar-se a si próprio, como quando Felipe diz a Philip que tem medo. De quê?, pergunta Philip. “Transformar-me inteiro por aqui”. Então, se Mentiras mente é por ser unicamente verdadeiro.

6. Mentiras é um livro pequeno com muitas coisas a dizer. Muitas outras notas poderiam ainda, é certo, ser acrescentadas. Então a despedida desta crónica faz-se com a sensação de que falta ainda muito para dizer. O que é bom sinal.

João Guilhoto