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Por que favela?

16 de março de 2015

Por: Simone Paulino

Eu me apaixonei por Eu sou favela desde que conheci a Paula Anacaona, editora francesa que fez a organização da coletânea e é minha parceira agora. Ela também é uma inspiração para mim pelo extraordinário trabalho que faz da divulgação da literatura brasileira na França, de forma independente, focada e audaz.

Embora eu não tenha morado numa favela literalmente falando, nasci na periferia de São Paulo, num bairro que tinha um dos piores IDHs do país e tenho a vivência de quase todos os dramas relatados no livro. Esse “eu” que está no “favela”, portanto, tem uma parte de mim. Flaubert disse:  “Madame Bovary sou eu” e acho que posso parafraseá-lo dizendo “a Favela sou eu”. Mas não apenas essa “favela” no sentido do dicionário “toscamente construída e desprovida de recursos”.  E, sim, a “favela” no sentido que hoje lhe atribui o antropólogo Hermano Vianna, para quem “a novidade mais importante da cultura brasileira na última década foi o aparecimento da voz direta da periferia falando alto em todos os lugares do país. A periferia se cansou de esperar a oportunidade que nunca chegava, e que viria de fora, do centro. A periferia não precisa mais de intermediários (aqueles que sempre falavam em seu nome) para estabelecer conexões com o resto do Brasil e com o resto do mundo”.

Acho que de alguma forma essa síntese do Hermano fala de mim, que saí da periferia para o centro e fui aos poucos me apropriando da minha voz. Sinceramente acho que a Editora Nós e o Eu sou favela são uma prova desse empoderamento da periferia, empoderamento este que está diretamente ligado ao acesso à literatura. Pois eu acredito, como disse o Ruffato no seu discurso em Frankfurt, que se a literatura pode mudar a vida de uma pessoa – e pode, porque mudou a minha, a dele, a do Ferréz, a do Ciríaco – ela pode mudar a sociedade. E isso me interessa muito! Sei que pode parecer ingênuo, mas estou disposta a dar minha vida por isso.