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De livros e aproximações

2 de outubro de 2015

Por: Simone Paulino

Quando, pela primeira vez, li a frase “quase toda a vida se poderia resumir a isso: pouco mais do que uma aproximação” e o livro que se desenrolava atrás desta frase, eu tive uma certeza. O Livro das Aproximações, do João Guilhoto, era um desses livros inesquecíveis, “um livro infinito”. Na época, tudo o que eu queria era ser uma editora de literatura contemporânea para poder publicá-lo, mas não era e, portanto, não podia.

Conheci o João na Feira do Livro de Frankfurt, no ano em que o Brasil era o país homenageado. No dia anterior, tinha conhecido, de uma forma muito inusitada, outro escritor que virou meu amigo, o Antonio Salvador. Estávamos os dois em um dos hubs no pavilhão internacional, onde o acesso à internet era melhor. Sentamos e ficamos conversando ali, claro, discutindo literatura e também comemorando, pois o Antonio tinha acabado de ser informado que ganhara o Prêmio São Paulo de Literatura.

Quando sentamos, notei que tinha na mesa coletiva um rapaz de sobretudo, muito compenetrado no seu celular. Mas foi uma surpresa quando, no meio da nossa conversa, o rapaz se aproximou mais e nos interrompeu perguntando: “vocês são brasileiros?”. Na voz, imediatamente percebemos o sotaque português. E João disse algo como: “é tão bom ouvir alguém a falar nossa língua depois de tanto tempo”. Soubemos depois que João, embora nascido em Lisboa, vivia em Frankfurt, trabalhando e escrevendo. Era, ele também, um escritor como nós.

Dali em diante, passamos o que restava da tarde discutindo literatura. Lembro de um embate que deve ter durado mais de uma hora, que travamos em torno da genialidade dos portugueses contemporâneos. Eu, cega de paixão por Valter Hugo Mãe. João, aficionado por Gonçalo M. Tavares. Antonio mediando a discussão, se não me falha a memória, inserindo o debate na tradição literária, ao colocar no centro a eterna polêmica José Saramago X Lobo Antunes. Foi um tempo infinito, inesquecível no que tinha de concreto e de mágico, como em geral são estes encontros improváveis. Nos adicionamos no Facebook e, um dia ou dois depois, seguimos cada um o seu caminho. Eu voltei para o Brasil. Antonio voltou para Berlim. E João permaneceu em Frankfurt.

Nós só nos veríamos novamente no Brasil quando, no ano seguinte, João aqui esteve numa viagem turística. Nos encontramos na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. A esta altura, eu já tinha lido vários dos textos do João. Estava fascinada pelo “Dicionário” que ele vinha escrevendo. E tinha tido os primeiros contatos com O Livro das Aproximações, que estava ainda sendo escrito. Em mim, permanecia o desejo imenso de publicar aquele autor inédito aqui, em Portugal e no mundo. Suspeitava no João o frescor de uma genialidade precoce, ele que tão jovem, menos de 30 anos, vinha escrevendo um livro infinito, inesquecível, de uma profundidade filosófica, poética e estilística extraordinárias.

No ano seguinte, nos reencontramos em Frankfurt. João me apresentou lugares sensacionais da cidade, como o bairro de Bockeinheimer, onde conhecemos, por acaso, um siciliano chamado Gabriel Califfi, que também se tornou nosso amigo. Conversamos muito mais: Beckett, Clarice, Guimarães. Musil, Virginia. Na época, João estava lendo Proust. Passou dois anos quase inteiros vivendo diariamente com o autor francês. Parece tudo tão distante, tão perdido no tempo, mas foi outro dia, outubro do ano passado. E algo em mim já anunciava o que estava a aproximar-se. Reafirmei ao João meu desejo de públicá-lo, quem sabe começando pelo seu “Dicionário”. Poucos meses depois, a vida tinha mudado completamente e eu era dona do meu próprio nariz, dona da minha própria editora. A decisão foi natural: publicaria o livro dele no Brasil.

Hoje é dia 1o. de outubro de 2015. Daqui alguns dias, começa uma nova Feira do Livro de Frankfurt. O Livro das Aproximações está saindo da gráfica, lindo de morrer, infinito e inesquecível! A Editora Nós e eu, que sou parte da Editora Nós, estamos muito felizes por termos encontrado o João no meio do nosso caminho, e por termos nos aproximado dele e das suas palavras. Termino esse texto aqui com uma “aproximação” colhida no número 35 do seu livro infinito:

Já não tenho pressa em chegar, chegarei com ou sem ansiedade. Enquanto espero, posso sentir a viagem do tempo suavizada no vento, imortal na constância, finita no corpo. Sem pressa, aproximo-me dos pássaros, crescem-me umas asas de Simorgh e alcanço o tempo não como um deus, mas como não sendo. A consciência que é uma imaginação. A imaginação que é uma viagem. 

Seja bem-vindo à literatura e à Nós, João Guilhoto!