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Aviso aos Retirantes

4 de agosto de 2015

Por: Simone Paulino

Agosto chegou tirando tudo do lugar. Transformador. E eu comecei o mês pensando muito no tipo de editora que tenho sido e estou sendo. Uma conclusão já tenho: para o bem e para o mal, não sou uma editora blasé, daquelas que andam um centímetro acima do chão, que têm aquele olhar teatral de quem finge que não vê o mundo à sua volta. Confesso que às vezes me sinto inadequada, porque a editora que eu sou trabalha e vive tudo misturado, é muito muito mundana, tem a cabeça nas nuvens, mas os pés muito no chão (quase sempre descalços), diferente da turma que prefere um modo de vida de editor mais encastelado e inacessível.

Não consigo ter aquele “distanciamento” que se prega por aí, a tal “objetividade profissional”. Não faço “networking”, conheço e encontro pessoas nas minhas andanças. Não faço “business”, invento livros. Amo e sofro com a profissão que escolhi porque não é “profissão”, é vida que pulsa. Vibro e me excito com cada livro. Só trabalho com gente por quem tenho afeto. E se me decepciono ou se não me querem, me retiro, definitivamente. Acho a vida muito curta pra se fazer o que não se gosta, com gente que a gente despreza ou com pessoas que nos ignoram. Quem trabalha e vive comigo sabe a dor e a delícia que é estar perto de mim porque não sou de meio-termo.

Mas por que estou dizendo tudo isso? Porque agosto começou muito intenso para a Editora Nós, que sou eu, como disse a pouco, e todos os outros que estão comigo nessa loucura que é editar livro no Brasil, precisamente neste momento histórico, social, econômico, político em que tudo parece provisório.

Acontece que o eu que está dentro da Nós, se mudou de casa depois de quinze anos e agora mora na Vila Madalena. Um sonho antigo, como muitos sabem. E, claro, se eu mudo, Nós mudamos! Estou repensando a sede da Editora, hoje instalada oficialmente num espaço do Brooklin. Quero trazer a Nós para perto de mim, porque estou amando viver na Vila. E para demonstrar nosso amor por este lugar, decidimos que vamos tomar a Vila Madalena para Nós no mês de agosto. Faremos dois lançamentos no mesmo final de semana, sábado e domingo, um na Monkix da Harmonia (Apocalipse Nau), outro na Livraria da Vila da Fradique (A Divina Jogada). Vamos nos instalar por aqui como uma barulhenta trupe. Com sorte, vai ter jazz ecoando na rua para comemorar tudo junto: a vida, o livro, a literatura, a arte, a mudança.

Enquanto isso, temos três novos livros quase prontos. Já falei aqui do belíssimo Livro das Aproximações, do João Guilhoto. E já saiu na imprensa o lançamento de A Inocência das Facas. O terceiro deles, de novo, é um livro cheio de vida, entrou na Nós sem muito planejamento. Chegou e foi acolhido. Simples assim. Quando criamos a marca da Nós, eu dizia que a letra “O”, do centro da palavra, era como um espaço aberto onde pessoas, ideias e desejos poderiam entrar. E foi assim que entrou na Nós, a ideia, o desejo e o amor do Guilherme Sierra, meu huckleberry friend. A Editora Nós acolheu o projeto dele de relançar Aviso aos Retirantes, do mítico jornalista Edenilton Lampião, também conhecido como pai do Gui. O livro, que tem prefácio dos irmãos Vilas Boas, será lançado em breve, na Vila Madalena, é claro! Este já tem data marcada: 10 de setembro. Mas setembro, bem, setembro é outra história, também ela cheia de mim, cheia de Nós. Depois volto pra contar…