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A poesia é o homem

9 de agosto de 2016

Por: Roberto Parmeggiani

Quando, no início de 1300, Dante Alighieri contou a grande viagem alegórica entre o inferno, o purgatório e o paraíso, ele queria refletir sobre a diferença entre o bem e o mal, ajudando os homens  a encontrar o caminho da verdade. Para que a mensagem chegasse ao maior número de pessoas possível, escolheu contar acontecimentos cotidianos, nos quais as pessoas comuns pudessem se reconhecer, e usar o volgare, a língua que era falada pelo povo.

Justamente por isso, ele decidiu chamar a obra simplesmente de Comédia – foi Giovanni Boccaccio, que mais tarde a chamou “Divina”, e só em 1500 o título oficial se tornou A Divina Comédia – para sublinhar, apesar da riqueza do conteúdo e da profundidade da mensagem, a acessibilidade e a compreensibilidade para todos.

A Divina Jogada, reinterpretação contemporânea da obra do grande poeta italiano, escrita por José Santos e ilustrada por Guazzelli, tem em comum com o original não apenas o contexto onde ocorre, a luta entre do bem contra o mal e a divisão em versos decassílabos encadeados e rimados, mas, acima de tudo, o uso de uma linguagem popular e um código metafórico – o futebol – acessível e compreensível para a maioria das pessoas.

Em certo sentido, podemos dizer que esta reinterpretação vem nos ajudar e nos permite nos livrarmos do temor que envolve qualquer um que se aproxima das tercinas dantescas. Isto é, nos permite recuperar um pouco da leveza e da ironia com a qual o poeta florentino escreveu seus versos e, portanto, apreciar mais profundamente o sabor e o valor de uma obra tão importante para a literatura mundial. Seguir Dante e Virgílio de etapa em etapa, até as arquibancadas, e torcer, nos faz nos sentir à vontade e nos permite descobrir que a realidade descrita por Dante conta algo também de nós. Dos nossos medos, das nossas culpas, da luta entre o bem e o mal em que vivemos, em primeiro lugar, dentro de nós. Para, enfim, realizar nosso maior desejo e, finalmente, nos alegrarmos porque o mal perdeu de novo.

A poesia é o homem, disse Salvatore Quasimodo. Reescrever um poema significa, então, traduzir também o homem que representa, porque a busca da linguagem mais adequada coincide com a busca da identidade do homem. José Santos conseguiu este desafio: tornar contemporâneo um clássico, mantendo-se fiel ao desejo do autor, conseguindo, na verdade, uma atualização que ao longo do tempo torna-se cada vez mais difícil por causa do preconceito devido à freqüência limitada a um passado que parece cada vez mais distante.

O mesmo vale para a tradução que vou realizar para o italiano. Minha ideia é seguir seus passos na tentativa de entregar aos leitores um texto tão fiel ao desejo quanto acessível ao público.