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A construção de uma nova identidade nacional

16 de março de 2015

Por: Marcelo Laier

Certa vez Antonio Candido afirmou em uma entrevista que os franceses foram fundamentais na compreensão de nós mesmos no processo de construção da identidade nacional ao longo do século XX. Em 2011, uma editora francesa publica em Paris uma coletânea de contos de autores brasileiros contemporâneos que agora faz sua travessia atlântica de (eterno) retorno. Assim nasce Eu sou favela, a um tempo só título inaugural e pedra de toque da Editora Nós.

Centrado naqueles que não obtêm os favores do mundo, e frequentemente são oprimidos pelo aparato policialesco do Estado, os nove contos do livro são instantâneos das mazelas e injustiças enfrentadas pelos habitantes das favelas, ampliados pelos recursos técnicos empregados pelos ficcionistas, como a singeleza lírica de “No Morro”, a ambiguidade lúdica de “Um Novo Brinquedo”, a apóstrofe da paixão perdida em “Maco desce o Morro”, a potência cênica de “Balaio” ou ainda a inexorável tragédia dos esfaimados em “Nervos” ou “Coração de Mãe”.

Não é um desatino relembrar que um dos precursores do Cinema Novo foi o episódico filme Cinco Vezes Favela, produzido pelos CPC da UNE no início da década de 1960. A organizadora de Eu sou favela afirma em sua apresentação que sua ideia foi selecionar “curta-metragens literários”, escolha certeira para a época fragmentária e atomizada em que vivemos. Não seria nada surpreendente se o cinema viesse a se interessar pelos contos do livro.  Uma nova identidade nacional pode estar sendo construída, agora com a participação direta da periferia.

 

Crédito de imagem: Luiz Paulo Pretti. Cinco vezes favela, episódio “Pedreira de São Diogo”.